QUARTA-FEIRA, 23 DE JANEIRO DE 2013
Países
formados por ilhas, como Kiribati, Tuvalu e Vanuatu, sofrem com a elevação dos oceanos e
correm o risco de desaparecer ou de afundarem na pobreza.
Você já imaginou o que é viver num
país onde a água própria para consumo está acabando?
A expedição do Fantástico pelo planeta
ameaçado chega a dois lugares que enfrentam o mesmo problema.
Mas que tem soluções, e um futuro, bem
diferentes.
O aumento do nível dos oceanos já destrói paraísos isolados, avança pelos degraus de cidades históricas e deixa evidente que, quando
a proximidade com a água se torna uma ameaça, as chances favorecem quem tem
tecnologia e dinheiro.
O Fantástico foi de Veneza, na Itália, ao outro lado do globo, até
Vanuatu
no Oceano Pacífico.
É impossível contar a história da
riqueza da humanidade sem passar por Veneza.
Foi o comércio e o transporte de
mercadorias que a criou.
Acomodada sobre ilhas rasas, em meio a
uma laguna, desde o início de seus dias, a cidade do romance namora e briga com
a água.
Na cidade, vários prédios tiveram que abandonar o primeiro andar porque a
água está entrando.
Em um deles, por exemplo, a água já chegou ao último degrau e,
quando dá maré alta, todo dia entra prédio adentro.
A cidade sem automóveis trafega pelos
canais, cheios de cicatrizes dessa relação de amor e perigo, chamada de “acqua alta”: água alta.
Em uma porta, está marcado o recorde
da “acqua alta” de 1966,
a mais alta de todas, quando a água subiu quase dois metros.
Em dezembro de 2008, na quarta maior “acqua alta” da história, a água passou de um 1,5
m.
Em cada casarão, um jeito de enfrentar
a água.
Alguns subiram o piso; outros, a
soleira da porta.
A água define Veneza.
Foi a água que permitiu que a cidade prosperasse e fez dela essa cidade
única no planeta.
Mas, ao mesmo tempo, a água é uma
constante ameaça à existência da cidade.
Por isso, ao longo dos séculos, Veneza
se tornou uma especialista em adaptação.
Mas como impedir que a água brote do
chão na famosa Praça São Marcos?
A praça vira uma piscina, que os
turistas atravessam em passarelas improvisadas.
Os venezianos, tão ricos e orgulhosos,
vivem dias de flagelados.
As grandes “acqua altas”, que, no começo do século 20, eram
menos de dez por década, agora já são mais de 50.
Mas Veneza está se prevenindo.
No imenso canteiro de obras do Projeto
Mose, um plano de R$ 25 bilhões para conter as águas.
A laguna onde fica Veneza é fechada
com uma faixa fina de areia.
Apenas três aberturas permitem que a
água entre e saia com as marés.
É nesses três pontos que serão construídas as mega comportas do Projeto
Mose.
Toda esta estrutura em concreto vai
para o fundo do mar.
As comportas ficarão no fundo repletas
de água.
Em tempos de “acqua alta” chegar, uma injeção de ar vai
expulsar a água,
fazendo a muralha subir e segurando o
avanço da maré.
O engenheiro Enrico Pellegrino não
esconde seu orgulho.
“Fazemos uma obra única e grandiosa”, diz ele.
Todas as ilhas da laguna vão ficar
protegidas de uma elevação no nível do mar de até 60 cm, justamente o previsto
para o final deste século pelos cientistas do IPCC, o painel da ONU que estuda
o aquecimento global.
Martin Hoerling lidera um grupo de pesquisadores que estuda a temperatura dos oceanos,
com milhares de sensores em todo o planeta.
No último verão, por exemplo, eles
registraram o aquecimento do Atlântico na costa do Brasil.
E o que
vamos ver no futuro é assustador.
O primeiro
mapa mostra como está hoje.
O segundo,
a temperatura dos oceanos em 2050: de 1ºC a 2ºC mais quente.
E no terceiro, em 2090, aquecimento de
3ºC, se as emissões de gases continuarem como estão.
Em terra, o
aumento de temperatura vai ser maior, acelerando o degelo, que aumenta o nível
dos oceanos.
A meio
mundo de distância de Veneza, outros lugares ameaçados pelas águas não têm como
se defender.
Países
formados de pequenas ilhas - como Kiribati e Tuvalu - vão desaparecer se o
nível dos oceanos subir pouco mais de um metro.
E mesmo os que tem ilhas mais altas,
como Vanuatu, que não vai desaparecer totalmente, corre um risco não menos
assustador: ser jogado ainda mais profundamente na pobreza por causa das
mudanças climáticas.
Dias de tormenta no paraíso.
Vento forte, correntes que mudam e,
aos poucos, refazem o mapa das praias de Vanuatu, no Pacífico Sul.
Ilha após ilha, a costa está cheia de
árvores caídas.
Imensas raízes apontam para o alto.
Nas ilhas, o trabalho de adaptação
fica literalmente nas mãos dos moradores.
Eles estão tentando impedir que a água
passe do ponto que já foi a linha da praia.
Mas estão lutando com uma força muito
maior do que as pedras podem conter.
Que
diferença de Veneza!
Diferença
que o idealizador do projeto italiano explica bem.
“Se há disposição para investir, a
solução técnica a gente acha”, diz Albeto Scotti.
Esse é o
argumento de Bjorn Lomborg, o ambientalista cético: em vez de se concentrar no
corte de emissões de gases estufa, investir em desenvolvimento.
A maioria
dos países, diz ele, vai poder lidar com as consequências do aquecimento quando
enriquecer.
Um exemplo são
os furacões.
Na Flórida
rica, raramente alguém morre.
Mas, nos
países pobres, muitas pessoas morrem porque não há infraestrutura para lidar
com os problemas.
Na Ilha de
Pele, dois mil habitantes vivem à parte da modernidade o ano inteiro, como
sonhamos passar uns dias de férias.
Mas o
paraíso está perdendo sua água doce.
A água que
a vila toda bebia há dois anos começou a ficar salobra.
A praia fica a 100 metros do local.
E, de alguma forma, a água salgada
conseguiu penetrar no lençol freático.
A água está ainda mais salgada que a
outra ainda.
A esperança é uma fonte que tem uma
aparência bem feia.
O chefe da vila explica que a fonte
nunca secou.
É a única da ilha que não está
salobra, mas está verde.
O pesquisador acredita que a água
esteja contaminada.
É de lá que os moradores estão tirando
a água de beber, lavar louças, do banho.
Os pesquisadores estão implantando um
novo sistema de criação de porcos para resistir ás mudanças do clima.
Na falta de água doce, os bichos bebem
água de coco e se alimentam de coco.
Mas e os moradores?
Eles reclamam que a lavoura está cada
vez menos produtiva e levam a equipe do Fantástico para ver que a única memória
do lugar.
Um homem mostra o túmulo do avô e de
outros parentes.
O cemitério foi levado pela ressaca.
Culpa do aquecimento da água do mar.
O oceanógrafo Christopher Bartlett explica que antigamente havia
períodos de água quente a cada 15 anos.
Agora, tem todo ano.
O calor frequente mata os corais e a
barreira que defende as praias das ressacas se vai.
Como se vão também os peixes que
alimentam o povo.
Sem água e sem comida, eles podem ser
expulsos do paraíso, pagando por um pecado que outros cometeram, desmantelando
uma cultura tão ligada à água que dela tira arte em forma de música.
Até quando?
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