OGUN HOLDER“AMOR, PERDA E LIBERAÇÃO”QUARTA FEIRA 11 MARÇO DE 2026Aprenda
como o luto e a descolonização podem levar a uma espiritualidade mais
aprofundada e a relacionamentos mais gratificantes.
O luto é
a nossa resposta à perda.
É
natural, imprevisível, emocional, corporal e transformador.
Pode
ser avassalador ou suportável, paralisante ou libertador, e tudo que existe
entre esses extremos.
Lidar
com o luto é um exercício de aceitação, entrega e
vulnerabilidade.
Não
é algo a ser curado, mas uma jornada de cura na qual os melhores mapas e guias
jamais nos ajudarão a encontrar o destino.
Não
existe destino – apenas a jornada.
Nos
primeiros anos após a morte da minha esposa, em 2015, eu achava que o luto era
um adversário a ser compreendido e vencido, como um boxeador à minha frente se
movendo de forma ágil pelo ringue, sempre se esquivando das minhas tentativas
de desferir um golpe impactante – qualquer golpe, na verdade – e ultrapassando
minhas defesas para me atacar de maneiras e em momentos que não conseguia
prever.
Foi
somente após ser derrubado e derrotado repetidamente, depois de chegar à
exaustão física e emocional, depois de inúmeras tentativas fracassadas de me
distrair e me anestesiar – com álcool, sexo,
relacionamentos,
compras e fuga espiritual e emocional
– que finalmente me rendi ao luto.
Foi
só aí que o luto estendeu a mão para me ajudar a levantar e abriu os braços
para me abraçar.
Juntos,
saímos do ringue, lado a lado, combatentes transformados em compatriotas.
Eu
não tinha entendido a lição.
A LIÇÃO DO LUTO: IMPERMANÊNCIA
Meu luto
não se limitou à minha esposa.
Nos
dez anos seguintes, perdi duas tias, um tio, dois avós, um
melhor amigo e meu pai.
Todas
essas mortes transformaram minha relação com os relacionamentos, principalmente
os românticos e íntimos.
Eu me
apaixonei novamente – mais de uma vez, na verdade – mas de uma maneira
diferente.
De
início, pensei que simplesmente não me importava tanto com essas parceiras
porque elas não eram minha esposa.
Para
ser sincero, algumas delas combinavam mais comigo que minha esposa – pelo menos
com a pessoa em que eu havia me tornado.
Mas
ainda havia um distanciamento indefinido – uma parte de mim que eu reprimia
inconscientemente.
Eu
acreditava que apenas não queria sentir uma dor tão profunda e intensa de novo,
então não amei tão plenamente quanto antes.
Com o tempo, percebi o que
realmente estava acontecendo:
O
luto estava me guiando para uma compreensão e uma prática mais ampliadas do desapego.
É
possível que conseguisse atingir isso sem toda a morte e luto – acredito que
todos têm este potencial – mas, às vezes, nos recebemos um gatilho que nem
sabíamos que precisávamos.
Atingimos
e vivemos um estado de desapego quando aceitamos a impermanência; quando
fazemos as pazes com a consciência de que podemos perder tudo que conhecemos e
amamos, inclusive nossa própria vida.
Buda
disse:
“Você só
perde aquilo a que se apega”.
Podemos
inferir das palavras dele que, quando deixamos de nos apegar a alguma coisa –
quando não a possuímos mais, quando não ficamos mais fixados no resultado
desejado – não sentimos a dor da perda quando essa coisa se for.
Na
teoria, parece fácil.
Soa
tanto inspirador quanto ambicioso, e, pra ser sincero, totalmente
desumano e impossível.
Às
vezes me pergunto se Buda realmente tinha amigos depois de dizer coisas assim.
(Provavelmente
não).
Mas
a verdade é que é tudo isso.
E,
assim como o luto, trata-se mais de prática do que de perfeição.
O CAPITALISMO
DENTRO DOS RELACIONAMENTOS
Enquanto
passava pelo luto e aprofundava minhas práticas de mindfulness,
também trabalhei para me descolonizar de traços internalizados e inconscientes
de ideologias opressoras como o capitalismo, a supremacia branca e o
patriarcado.
Embora
a influência do patriarcado na forma como eu lidava com relacionamentos íntimos
fosse bastante óbvia, fiquei
surpreso ao descobrir o quanto o capitalismo tardio também os impactava.
Ele
nos ensina que a vida é definida pela aquisição; que sempre há mais para
ganhar, para acumular; que apenas ter o suficiente é considerado um fracasso;
que nosso valor é diretamente proporcional ao quanto acumulamos, à rapidez com
que acumulamos coisas e ao poder que podemos exercer com isso.
Tudo
mentira.
Percebi que via minhas
parceiras através das lentes da posse e da transação, com uma linguagem
aparentemente inocente e normalizada que refletia exatamente isso: esta é minha esposa/namorada/parceira
– ela me pertence; ela deve a mim, e somente a
mim, certas intimidades.
Os
valores hierárquicos e transacionais do capitalismo continuavam se
manifestando.
Quem
manda na relação?
Deveria eu ter mais autoridade por ganhar mais dinheiro?
Estou controlando quem faz o quê e em que proporção?
Minha
parceira é uma pessoa de alto valor
(um parâmetro problemático nos relacionamentos/namoros nas redes
sociais,
geralmente centrado no sucesso financeiro)?
O quanto meu senso de valor está atrelado à minha
parceira/relacionamento?
É claro
que é importante ter um relacionamento equitativo, com
acordos que respeitem os desejos de todos os envolvidos, além de um método de
prestação de contas e comunicação mais acolhedor do que hostil (eu gosto e uso
o formato RADAR).
Mas
é diferente quando mantemos uma pontuação para exercer controle ou por medo de
que o relacionamento termine.
O
medo pode nos levar a ceder ou reduzir nossa plenitude para nos encaixar em uma
versão administrável e não ameaçadora.
AMOR SEM APEGO
Quando
você segura alguém que ama nos braços enquanto essa pessoa dá seu último
suspiro, a impermanência deixa
de ser um conceito abstrato.
Ela
se torna uma realidade sentida em cada fibra do seu ser, tão profundamente
entrelaçada com sua essência que você não sabe como compreendê-la.
Com
o tempo, porém, se você permitir que isso te influencie e te transforme, você passa
a entender o quanto – e por que – você se apega aos outros: medo da solidão; medo
de estar quebrado e não ser amado; medo de morrer sozinho; medo da morte em si.
Se você
for paciente de verdade, poderá descobrir que não precisa se apegar com tanta
força; que amar e ser amado nunca vai dissipar completamente esses medos.
Talvez
você aprenda a amar com um apego cada vez mais solto, até que tudo que reste
seja o espaço para o amor florescer – ou murchar – contente em saber que ele,
ou eles, nunca lhe pertenceram para sempre.
Amar sem
apego não significa amar sem compromisso, compaixão,
bondade ou vulnerabilidade.
Amar
sem apego nos leva à uma conexão sem controle; à
autenticidade sem ansiedade; a sermos a plenitude de quem somos sem medo da
rejeição; a saber que o amor não pode existir sem perda – e que tanto o amor
quanto a perda abrem nossos corações mais do que jamais imaginamos.
Amar
sem apego é liberdade.
Autor/Canal: Ogun Holder
Fonte: https://www.spiritualityhealth.com/love-loss-liberation
Fonte secundária: https://eraoflight.com/2026/03/09/love-loss-and-liberation/
Tradução: Sementes das Estrelas/Mariana Spinosa
https://www.sementesdasestrelas.com.br/2026/03/ogun-holder-amor-perda-e-liberacao.html/


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