GERRIT GIELEN“SER HUMANO”TERÇA FEIRA, 14 DE ABRIL DE 2026“J’accepte la grande aventure d’être moi.”
– Simone de Beauvoir
“Aceito a grande aventura de
ser eu mesma.”
– Simone de Beauvoir
A
questão do sentido da vida é tão antiga quanto a própria humanidade.
Ao
longo dos séculos, inúmeras respostas foram oferecidas.
Ainda
assim, muitas pessoas ainda consideram sua existência inútil.
Eles
se sentem para baixo, deprimidos ou até sem esperança.
Alguns
não veem saída e tiram a própria vida — até mesmo jovens.
Especialmente
quando a vida dói, surge essa pergunta urgente: qual é o sentido
de tudo isso?
Frequentemente
nos dizem que a vida só ganha sentido quando alcançamos um objetivo específico,
felicidade, autorrealização ou algum “propósito
de vida”
especial que devemos descobrir.
Mas
isso significaria que a vida não tem sentido para muitas pessoas que nunca
alcançam esse objetivo.
O
verdadeiro significado não pode ser uma recompensa pelo sucesso ou um ponto
final que apenas alguns alcançam.
Deve
ser baseado em algo que todos compartilhamos, independentemente
dos nossos sucessos ou fracassos.
Em
outras palavras, se a vida tem sentido, ela tem significado para todos, não
importa o que façam da vida
Não
vem com condições — é um presente incondicional para todo ser humano.
Se
a vida não tivesse sentido, simplesmente não existiria.
Mesmo
quando tudo dá errado, mesmo quando tudo parece falhar, a vida continua
significativa.
O
que consideramos uma vida sem sentido ainda carrega significado dentro de si.
O motivo
pelo qual muitas vezes não vivenciamos dessa forma tem tudo a ver com a forma
como fomos ensinados a pensar e julgar quando crianças.
COMO APRENDEMOS A
PENSAR SOBRE O SIGNIFICADO
Uma das
primeiras coisas que ensinamos às crianças é a pensar em termos de certo e
errado.
Ainda
me lembro claramente da escola primária, uma linha vermelha grossa traçada em
tudo que eu errava.
Se
você fizesse tudo certo, todos ficavam felizes e orgulhosos.
Você
tirava nota máxima e podia escrever com tinta colorida — exceto amarela, porque
o professor não conseguia ler facilmente.
Naquela
época ainda usávamos canetas de imersão e tinteiros.
Crianças
que cometiam muitos erros tinham que repetir o ano.
Eles
foram separados do grupo, o que foi uma punição severa.
Naquela
época, ninguém realmente considerava o impacto psicológico que isso tinha na
criança.
A
lista de coisas que uma criança poderia errar parecia quase interminável.
Em
resumo, fomos treinados para ver tudo através da lente do certo e errado,
especialmente das nossas próprias escolhas.
Crescer
significava basicamente que nos ensinavam a internalizar normas e valores, o
que para uma criança parecia bastante antinatural.
Sem
perceber, começamos a tratar toda a nossa vida como um exame. Se acumularmos
muitas “linhas vermelhas”, falhamos e temos
que repeti-las.
Isso
nos leva a acreditar que a vida só tem sentido se fizermos as coisas “certas”
A
religião tradicional estende esse mesmo pensamento binário:
Deus
versus Satanás, céu versus inferno, crentes versus não crentes.
Isso
nos sobrecarrega com a terrível ideia de que uma pessoa pode falhar
eternamente.
Como
resultado, começamos a viver segundo as regras de uma autoridade externa cujo
principal objetivo é manter o poder.
Ser
adulto significa se tornar uma engrenagem na máquina.
Significa
que não podemos mais ser crianças.
E
não poder mais ser criança significa que não podemos mais confiar totalmente na
vida.
Alegria,
brincadeira e criatividade desaparecem e são substituídas pelo medo e
obediência.
Gradualmente
começamos a experimentar a vida como vazia e sem sentido porque paramos de
ouvir nossa própria força vital interior.
É assim
que nasce uma crise permanente de significado.
Enquanto
continuarmos vendo a questão do significado pela lente certa/errada, a crise
nunca vai acabar porque essa lente é a própria causa dela.
Então,
vamos tirar esses óculos e olhar o que chamamos de “erros” sob uma
perspectiva diferente.
ERROS: UMA PERSPECTIVA DIFERENTE
Às vezes,
as coisas dão muito errado na vida.
Um
motorista bêbado mata uma criança, por exemplo.
Tanto
os pais quanto o agressor ficam marcados para a vida toda.
Que
seja, uma tragédia é inquestionável.
Mas o
que acontece se não olharmos para o evento isolado, mas o enxergarmos de uma
perspectiva muito mais ampla — do ponto de vista
do universo, do todo no qual toda vida individual está inserida?
Ainda podemos falar de “erros” como
algo que simplesmente deu errado?
Nosso
julgamento sobre o que está errado está intimamente ligado à nossa perspectiva,
e especialmente ao nosso senso de tempo.
Vemos
um tempo antes do erro, o momento do erro, e o tempo depois dele, passado,
presente e futuro.
Dentro
desse quadro, esperamos cura, reconciliação ou significado.
Mas
como é a mesma realidade quando vista de uma perspectiva atemporal, onde o universo é visto como um todo indivisível?
Uma
metáfora comum é o relógio.
Se
um relógio tem engrenagens defeituosas dizemos que ele quebrou.
O
todo não funciona como deveria.
Da
mesma forma, as pessoas argumentam que, se o universo contém erros, então o
todo é falho.
Mas
se o universo é fundamentalmente falho, a própria existência se torna
problemática, um empreendimento sem sentido sem alternativa.
Como o todo pode ser bom quando contém tanto sofrimento e tantos
desvios?
Vamos
tentar uma metáfora diferente, o livro.
Um
bom livro não é aquele em que nada dá errado.
Pelo
contrário, um bom livro é significativo e perspicaz justamente porque as coisas
realmente dão errado.
Crime
e Castigo, de Dostoiévski , é um exemplo clássico.
O
protagonista, Raskolnikov,
comete um duplo assassinato e depois é atormentado pela culpa e pelo remorso.
A
história está cheia de descrições de sofrimento e colapso moral, mas é
exatamente aí que reside seu poder:
Ela
explora as consequências internas da culpa com uma profundidade extraordinária.
Por que
achamos um livro assim valioso?
Porque
a realidade que ela descreve não é a nossa realidade pessoal.
Entramos
nela temporariamente e a uma distância segura.
Podemos
fechar o livro e nos afastar.
Ao
mesmo tempo, revela algo profundo sobre a condição humana, sobre culpa,
responsabilidade e conflito interno.
Isso
nos enriquece sem nos ferir pessoalmente.
Isso
leva a uma visão importante; Uma realidade pode estar cheia de erros e
sofrimento quando vista de dentro, mas
ainda assim ser significativa e até valiosa quando vista de fora.
O
universo miniatura de um livro extrai seu significado não apesar de seus erros,
mas por causa deles.
Podemos
aplicar o mesmo princípio ao próprio universo.
O
que parece um erro dentro do fluxo do tempo pode, de uma perspectiva atemporal,
ser uma parte essencial de um todo significativo, um todo que nós, vivendo
dentro dele, só podemos experimentar em fragmentos e de dentro.
O
significado surge quando combinamos as duas perspectivas.
Podemos
comparar nossa própria vida a um livro que também estamos lendo?
E, se sim, essa perspectiva dá sentido à vida?
Nossa
vida como um livro que estamos lendo.
Se nossa vida é um livro, então quem é o leitor?
Essa é a
questão fundamental.
Essa vida é um evento isolado, ou faz parte de algo maior que lhe dá
significado?
Só
no segundo caso nossos erros e falhas assumem um peso diferente.
Eles
não são mais meros erros, mas passagens necessárias na história da nossa vida.
Minha
resposta é sim.
Existe
uma perspectiva superior dentro de nós que chamo de alma.
Não
como um dogma religioso, mas como uma realidade interior viva, uma dimensão de
nós que não está presa por tempo, lugar ou história pessoal.
Ela
se eleva acima deles, e a partir desse lugar, cada experiência em nossa vida é
significativa.
Você
pode negar isso, mas então deve aceitar que uma vida pode realmente falhar, que
ela não tem sentido e que simplesmente termina com a morte.
A
pessoa desaparece sem deixar rastros, como se nunca tivesse existido.
No
fim, tudo desaparece em uma noite sem fim.
Se você
vê a vida como significativa ou sem sentido depende inteiramente da perspectiva
que você adota.
É
uma escolha, você responde sim a essa pergunta
— minha vida tem sentido
mesmo quando as coisas dão errado, mesmo quando às vezes é miserável?
A vida
só pode parecer significativa se você se enxerga e experimenta como mais do que
esse indivíduo acidental colocado em um tempo e lugar aleatórios.
Só
pode ser significativo se houver algo dentro de você que transcende o tempo e o
espaço, que é a alma, a luz atemporal que você realmente é.
Quando
você se abre para essa possibilidade, algo muda.
A
vitimização dá lugar à percepção de que você é um estudante, alguém que está aqui
para aprender, que tem permissão para falhar, que falha e que cresce com essas
falhas.
Erros
se tornam fontes de sabedoria e insight.
Você
começa a se sentir apoiado por uma presença amorosa em sua jornada.
Você
não está mais sozinho.
A PERSPECTIVA MUDA
A
metáfora do livro vai ainda mais longe. Um leitor não quer uma história
perfeita.
Muito
pelo contrário, uma boa história precisa de conflito, erros
de julgamento e cegueira moral.
Sem
erros não há crescimento, sem crises, não há profundidade, sem erros não há
aprendizado real.
O que o
personagem principal experimenta como um desastre é frequentemente o exato
momento em que a história se torna verdadeiramente interessante para o leitor.
Isso
inverte completamente a perspectiva.
O
que eu pessoalmente vejo como um erro, a alma vê como uma experiência
necessária, a faísca para a transformação.
A
história não pode congelar; precisa continuar se desenrolando.
Sem
estagnação, apenas crescimento.
É por
isso que não cometemos apenas erros; somos construídos de tal forma que
certos erros sejam inevitáveis.
Nossa
personalidade já carrega as sementes dos nossos erros.
Assim
como o senso de superioridade moral de Raskolnikov o leva a cometer seus crimes,
nosso próprio personagem nos leva a problemas em momentos críticos.
Nesse
sentido, a imperfeição não é uma falha, é um requisito.
Sem
erro, não há insight.
Sem
trauma, não há cura.
O
imperfeito é o que a alma precisa para se realizar.
Deixe
essa ideia se instalar, a força que faz sentido dentro de nós não anseia por
uma vida perfeita.
Anseia
por experiências valiosas.
Quer
que tropeçemos, que nos percamos e que nos encontremos na resistência da vida.
Fomos
feitos para que isso aconteça.
Nosso
caráter é nosso destino, mas somos muito mais do que apenas nosso caráter.
FELIZES PARA
SEMPRE
Muitas
histórias, especialmente contos de fadas, terminam com as palavras “e eles viveram felizes para sempre.”
Esse
final é profundamente simbólico.
A
história da nossa vida termina com a morte.
Depois
disso, vem a reunião do masculino e do feminino dentro de nós, despertando para
quem realmente somos.
Então
começa um novo capítulo de paz e felicidade profunda, pelo menos por um tempo,
sem mais aventuras.
Quando
podemos dizer, ao fechar o livro da nossa vida,
“Aquela foi uma vida linda”?
Podemos
dizer isso quando nossa vida nos trouxe novas experiências e encontros que nos
enriqueceram por dentro.
Uma
vida cheia de erros geralmente é bastante rica em insights valiosos.
O PROPÓSITO DE UMA
VIDA
O
propósito de um bom livro não é retratar um mundo perfeito com pessoas
impecáveis.
Seu
propósito é enriquecer nossa mente e nos mostrar aspectos da realidade externa
e interior que antes não conhecíamos.
É
exatamente isso que a vida na Terra faz por nós.
Mesmo
uma vida que parece monótona ou sem cor nos dá algo, se é apenas um sentimento
de saudade.
Não
podemos deixar passar algo que não esteja já presente dentro de nós.
Esse
mesmo anseio contém uma descoberta, a descoberta do nosso milagre interior, o
brilho da nossa alma.
Em
resumo, quando removemos os óculos certo/errado, vemos que os erros são o
próprio material do qual uma vida significativa é construída.
Eles
levam a experiências, percepções e aventuras que nunca teríamos conhecido de
outra forma.
A
vida não é um exame a ser superado, mas uma jornada cheia de reviravoltas é
rica em possibilidades, crescimento e maravilhas.
Em
cada erro e cada reviravolta inesperada está a semente do significado.
A
vida é significativa justamente porque é humana, ou seja, cheia de erros e,
portanto, cheia de oportunidades para aprender, sentir e crescer.
CONCLUSÃO: O VALOR DE SER HUMANO
Do ponto
de vista da alma, toda experiência humana é única e valiosa, há solidão, dor e
fracasso, sim, mas também a beleza de uma flor ou de um gesto bondoso.
Até
mesmo momentos comuns e cotidianos enriquecem a alma.
Mas
o mais valioso de tudo é descobrir quem você realmente é.
Um peixe
não sabe o que é água até pular dela.
Da
mesma forma, a alma perde o contato consigo mesma no ser humano e se descobre
precisamente por meio dessa separação.
Nosso
sofrimento mais profundo é esse sentimento de separação de nós mesmos.
Por que passamos por isso?
Porque
essa separação torna possível uma grande aventura, a descoberta do cosmos, a
jornada de volta para casa e a redescoberta da nossa própria luz.
Uma
flor, um nascer do sol, uma música linda, amor nos olhos de alguém, palavras
sábias, tudo isso lembra a alma de si mesma.
A
alma vê seu próprio reflexo e reconhece sua beleza.
Isso
só é possível porque a consciência humana começa com a supressão da consciência
da alma.
Tornar-se
humano é escolher solidão, ignorância e liberdade, a
liberdade de cometer erros.
A partir
desse lugar, embarcamos em aventuras, abraçamos ideologias loucas e iniciamos
guerras até que chegue a magnífica redescoberta, o despertar da alma, o
despertar para nós mesmos.
Quanto
mais profundamente sentimos sua ausência, mais maravilhosa se torna a
descoberta final.
Nada é
sem sentido.
Cada
erro é uma oportunidade de sentir e crescer.
Em
nossos erros, descobrimos o divino.
Canal/Autor: Gerrit Gielen
Fonte primária: https://www.jeshua.net
Tradução: Sementes das
Estrelas/Isadora Delya Damasceno Branco
https://www.sementesdasestrelas.com.br/artigos/gerrit-gielen-ser-humano/


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