A.S.“O EU SE APROPRIA DE TUDO”QUARTA FEIRA 21 OUTUBRO DE 2026 Você/o
eu é um circuito neural bastante pequeno que gera desejo e ansiedade para
impulsionar o organismo em direção a comportamentos biologicamente benéficos.
No
entanto, apropria-se de tudo, ou seja, diz constantemente
“Eu sou isso/Eu estou fazendo isso”.
Quando, na realidade, é o organismo (aquilo que você pensa estar pilotando) que
está fazendo praticamente tudo.
Aqui estão alguns exemplos de
como o eu se apropria de tudo:
Exemplo 1: as pessoas pensam que o estado de fluxo é “Estou totalmente
no controle e no meu melhor”.
Mas
o estado de fluxo é, na verdade, o organismo funcionando muito bem e se
divertindo muito porque o eu/o ego se afasta por um tempo.
Assim, o
eu se apropria até mesmo do bom desempenho do organismo quando o eu não está
ativo (ou
seja, em estado de fluxo).
A
iluminação não é apenas o eu se afastando por um tempo, mas sim se dissolvendo
permanentemente.
Em
termos gerais, a iluminação é como um estado de fluxo permanente.
“Estado
de fluxo permanente”
não é exatamente iluminação, mas é uma boa metáfora.
O
taoísmo também aponta nessa direção.
“Estado de fluxo permanente” soa ótimo, e de
fato a iluminação é ótima.
Mas aí
você chega à definição de iluminação (dissolução permanente do eu) e quase todo
mundo se horroriza
— porque o eu se apropria de “ser a humanidade
do organismo”.
Quando
não é:
Rumi escreveu grandes poemas sobre o amor depois de sua
iluminação, por exemplo.
Assim, a
iluminação é mais ou menos um estado de fluxo permanente, mas como o eu se
apropria de tudo com tanta intensidade, “a iluminação é a dissolução do eu” soa como um filme de terror para as pessoas.
Isso
também explica a aparente contradição de porque a iluminação é, por um lado,
descrita como felicidade permanente e como “Prefiro viver um dia iluminado e depois morrer, do que
viver uma vida inteira sem iluminação”.
Mas,
por outro lado, a iluminação também é descrita como algo comum e como “antes da
iluminação, carregar água e cortar lenha; depois da iluminação, carregar água e
cortar lenha”.
A explicação é a seguinte: o estado de fluxo
permanente É incrível e maravilhoso.
Mas
a pessoa iluminada, estando em um estado de fluxo mais ou menos permanente, por
definição, não vai pensar “espera aí, estou em estado de fluxo agora!
Espera,
isso é incrível!
Uau!
Deixa
eu comparar cuidadosamente como estou agora com como eu estava há cinco anos”.
Afinal,
o eu estar ativo, se analisando e rotulando as coisas é exatamente o que não
acontece durante o estado de fluxo.
Assim, a
iluminação é descrita tanto como felicidade permanente quanto como algo comum.
O
EU SEMPRE SE COLOCA DO LADO DO BEM
Exemplo 2: Cada grupo acredita que é o bom e que todos os outros
são maus.
E
as pessoas sabem disso, mas continuam a se apropriar do papel de “eu sou o bom”,
independentemente de tudo.
Exemplo 3: Durante 99,999% da sua vida, o organismo respira bem
automaticamente.
Mas quando alguém
diz
“agora você
está respirando manualmente”, você acredita sinceramente que é você
quem está respirando e que agora precisa respirar conscientemente ou vai sufocar.
Mas,
é claro, dois minutos depois você se esquece de respirar conscientemente e seu
organismo volta a respirar normalmente.
Então,
claramente, não é você quem está respirando.
Mas
o eu se apropria de tudo, inclusive da ideia de
“Preciso
respirar agora ou vou sufocar”.
A
ARMADILHA DE SER O OBSERVADOR
Exemplo 4: como discuti na minha mensagem anterior,
“Os ‘falsos naturais’ estão enganando 99% das pessoas espirituais”: muitos
ensinamentos antigos dizem, na verdade, “você não é o piloto, dissolva-se”.
Mas
o ego constantemente reinterpreta esses ensinamentos antigos como “você é isso,
você deve fazer isso”, etc., para se dar um lugar.
Por
exemplo, o eu pode se apropriar do status de “Eu sou o observador/consciência”.
Pensar
“Eu sou o
observador” é mais funcional do que se identificar com cada
pensamento que surge.
Ainda
assim, se alguém insulta uma pessoa que afirma ser “a própria consciência”, observe
que ela imediatamente começa a se comportar como uma pessoa normal, defensiva
e mesquinha.
Portanto,
ela não é realmente “o observador”, é apenas uma pessoa cujo eu se
apropriou de um título pomposo.
Essa
armadilha do “eu
sou o observador” é tão comum que não são apenas as pessoas
espirituais que caem nela.
Aqui
está o rapper Dr. Dre caindo
na mesma armadilha em sua música “The Watcher”, onde ele se posiciona como
“O Observador”,
ou seja, o observador.
Ele
rima:
“Mas as coisas mais estranhas
podem acontecer no rap quando os caras se prendem à imagem e à atuação.”
Ah sim,
aqueles tolos ali estão obcecados com imagem e atuação.
Não
o próprio Dre, claro, ele
é o Observador.
Essas
outras pessoas são espiritualmente pouco avançadas e se envolvem em uma
espiritualidade performática, ao contrário de mim, a pessoa genuinamente
avançada espiritualmente que é
“o observador”.
Mais
tarde, nessa mesma música, Dre canta:
“Eu também não sou nenhuma
vadia”
Ah, bom
saber que Dre é o Observador,
mas também, ele
não é nenhum covarde.
Isso é
semelhante à maneira como as pessoas espirituais insistem em ser o observador/a
própria consciência.
E
também, elas silenciosamente pensam que são pessoas espiritualmente avançadas
que estão elevando a frequência do mundo, ao contrário daqueles indivíduos
comuns não evoluídos que estão mantendo a frequência baixa.
(Eu mesmo já fui culpado
disso.)
Será que
eles consideraram que, se a mecânica da energia funciona dessa maneira, o ego
espiritual deles e o fato de desprezarem silenciosamente as pessoas “normais”
podem estar contribuindo para a baixa vibração do mundo?
Jesus, em Mateus 7:21-23, sugere que os trabalhadores da luz com um
ego podem não ser tão benéficos para o mundo quanto pensam.
Pessoas
espirituais podem se defender dizendo “Eu nunca chamo alguém de ‘normal”, mas talvez
você secretamente pense em pessoas normais dessa forma, ou como algo
equivalente
De
acordo com a visão de mundo das pessoas espirituais sobre o funcionamento da
energia, até mesmo isso pode afetar negativamente a vibração do mundo.
E
se policiar ainda mais não é a solução – dissolver o ego, sim.
O rapper Dre continua com:
“Ou é a minha vida ou a sua, e
eu não vou embora,
eu
gosto de respirar.
Porque,
mano, a gente pode ir rodada por rodada,
pente
por pente, merda, libra por libra.”
Ele é o Observador, mas também está disposto a lutar com você
até a morte.
Pessoas
espirituais não serão tão ingênuas assim, mas possuem o mesmo tipo de essência,
apenas com uma apresentação mais profissional e atuando de forma mais discreta.
Porque
se você disser a alguém que é “o observador” ou
“a própria
consciência” que você é mais avançado espiritualmente do que essa
pessoa, garanto que ela fará um comentário insinuando que você é o tolo iludido
e que, na
verdade, ela é que é mais avançada espiritualmente.
Claro
que é uma luta verbal por status e não uma luta física até a morte, mas ainda
assim, as pessoas que se dizem O
Observador/observador/a própria consciência ainda têm um eu que
compete.
Portanto,
“Eu sou O
Observador/observador/a própria consciência” é apenas relações
públicas — é apenas o eu se apropriando de um status elevado.
Dre
continua com seu aviso “não se meta comigo”
cantando:
“Lembre-se que você está
mexendo com um homem de família.
Eu
tenho muito mais a perder do que você.
Lembre-se
disso quando quiser vir ocupar o meu lugar.”
O eu
sempre se apropria de razões pelas quais se considera especial.
Dre é um homem de
família, então isso agora é apresentado como uma razão pela qual Dre é especial.
Se
Dre não fosse um homem de família, ele usaria exatamente a razão oposta para
reivindicar um status especial: “lembre-se que você está mexendo com alguém que não tem
nada a perder.”
Independentemente
de quem a pessoa seja, alguma razão será racionalizada para que o indivíduo
possa se apropriar de um status especial.
Dre finaliza com:
“Cara,
nós começamos essa merda de gangsta e é essa a porra da gratidão que eu
recebo?”
Bem,
essa persona espiritual não durou muito — aparentemente, “O Observador” é apenas uma pessoa comum que quer reconhecimento.
O
mesmo acontece com pessoas espiritualizadas que se autodenominam observadoras
ou a própria consciência.
São
apenas pessoas comuns que se apropriaram de um título pomposo.
QUALQUER
CONCEITO VIRA UM NOVO EU
Exemplo 5: imagine uma torre Jenga onde cada um dos seus
conceitos é um bloco Jenga na torre.
Então
imagine-se assim.
Note que
você cria imediatamente um novo conceito (uma figura, uma nuvem, um ponto de consciência)
fora da torre.
E o
eu imediatamente se apropria desse conceito:
“Eu sou
essa figura/nuvem/ponto”.
No
entanto, acabamos de dizer que todos os conceitos são peças de Jenga na torre…
e mesmo assim o eu acabou de criar um novo conceito fora da torre e se
apropriou dele.
E se
você apontar isso, então o eu pode se apropriar de ser “o espaço em que a torre de Jenga se ergue”.
Mas
então a questão passa a ser: “quem é que está
reivindicando ser o espaço em que a torre de Jenga se ergue?”
O eu
apenas fabrica ou aponta para algo e depois se apropria disso, dizendo “Eu sou isso”
ou “Eu estou
fazendo isso”.
É
só isso, apenas um truque cognitivo.
Não
há nenhum grande significado místico por trás de
“Eu sou
a consciência/Eu sou o espaço em que as coisas acontecem”.
“Eu sou consciência” é apenas uma frase
que o eu aprecia porque pode usá-la para se apropriar de um status, e é por
isso que essa frase parece vagamente ressonante.
Na
verdade, a espiritualidade moderna permite que o eu se aproprie de forma
acelerada.
Não
precisa mais dizer “Eu sou isso”, mas agora pode declarar “EU SOU”,
e isso é considerado o ápice da sabedoria atualmente.
Usar “Eu sou”
como um indicador para retornar à presença sem palavras é uma ótima prática,
mas usar
“EU
SOU” como
uma identidade é se apropriar dela.
Então, a
espiritualidade moderna passou de “Eu sou isso” para
“EU SOU”.
Por que não dar um passo além, eliminar mais uma palavra e ir direto
para “Eu”?
Vamos
simplesmente declarar “Eu”, “Eu”, “Eu”, certamente
isso é sabedoria.
Ah, agora o truque ficou óbvio demais e já não é mais confortável?
O
PAPEL DE SALVADOR
Exemplo 6: algumas pessoas espirituais acreditam que publicar
artigos do tipo “mantenha
sua vibração elevada” é um enorme serviço cósmico que, por si só, fará
com que elas ou o mundo se movam para um estado praticamente paradisíaco.
Sob uma
interpretação benevolente, esses artigos realmente ajudam, mas a maneira como
algumas pessoas pensam que estão praticamente sozinhas “inaugurando uma Nova Terra, apesar de todos
esses ‘normais’ puxando a frequência
para baixo” ainda é claramente ego espiritual (e sim, eu mesmo já fui culpado disso).
Mesmo
que esses artigos ajudem, não ajudam a esse ponto.
Assim,
as pessoas se apropriam do papel de salvador.
Isso
pode ser explicado como Seleção
Descontrolada de Fisher.
Na
natureza, os animais continuaram selecionando chifres cada vez maiores em alces
ou caudas cada vez maiores em pavões.
Inicialmente,
isso era biologicamente benéfico porque os chifres/cauda sinalizavam que o
alce/pavão era saudável.
Mas, à
medida que os animais foram selecionando características como chifres/caudas,
estes acabaram ficando tão grandes que tornaram o animal menos funcional e
menos capaz.
Um
pavão com uma cauda enorme mal consegue se mover, mas mesmo assim é considerado
muito atraente pelas pavoas (fêmeas do pavão).
Da mesma
forma, os humanos continuam selecionando características como a confiança, que
em doses moderadas é um traço positivo.
No
entanto, após muitas gerações disso, muitas pessoas estão agora tão confiantes
que acreditam que seus artigos espirituais ou suas postagens no Twitter irão
resolver os problemas do mundo.
Os
mercados também selecionam o excesso de confiança — é do interesse de todos ser
um pouco mais confiante e prometer um pouco mais do que os outros para
conquistar o
público.
Foi
assim que passamos dos antigos mestres que diziam “você não é o piloto, dissolva-se para acabar
com o sofrimento” para os professores modernos que basicamente
prometem que você se tornará um semideus capaz de distorcer a realidade se os
seguir.
É claro que o ego prefere
assumir o papel de salvador a pensar:
“Sou o
resultado da Seleção Descontrolada de Fisher.
A razão
pela qual tenho tanta certeza de que estou salvando o mundo não é porque essa
seja a realidade, mas porque o excesso de confiança nos seres humanos foi
selecionado evolutivamente.”
(Nem todo biólogo concordaria
que o excesso de confiança é uma seleção descontrolada de Fisher em humanos,
mas,
pessoalmente,
acho que claramente é; as pessoas simplesmente não gostam de pensar no excesso
de confiança como análogo a chifres de alce desproporcionalmente grandes.
E,
claro, você sempre pode ajustar seus modelos e definições para que digam o que
você quer e excluam o que você quer excluir.)
A
LIBERDADE DE NÃO SER NINGUÉM
Exemplo 7: Na Odisseia, um ciclope pergunta a Odisseu seu nome.
Ele
responde “ninguém” e cega o ciclope.
Então
o ciclope grita “ninguém
me machuque!” e os outros gigantes pensam que ele está bem e vão
embora.
Odisseu
e seus homens começam a remar em segurança para longe, mas então o próprio Odisseu deseja se apropriar de um status
elevado.
Ele
grita para o ciclope que foi Odisseu quem
o cegou.
Agora
sabendo o nome de seu agressor, o ciclope pede a um deus que castigue Odisseu, e o deus assim o faz.
Dessa
forma, o que seria uma curta viagem de volta para casa para Odisseu se transforma em um pesadelo que dura uma
década.
Essa é uma ótima metáfora de
iluminação:
você pode não ser ninguém e a vida é fácil, ou pode simplesmente deixar seu ego
se apropriar de tudo e ficará perdido no mar por uma década de pesadelo.
———–
A
apropriação indevida de tudo também é o motivo pelo qual as pessoas levam as
coisas para o lado pessoal
(“você
fez isso para me magoar!”), quando, muitas vezes, a
outra pessoa está apenas agindo em benefício próprio, e não por maldade
pessoal.
Daí
o conselho de não levar as coisas para o lado pessoal.
E se
antes você se horrorizou com a afirmação “iluminação é autodissolução”, pense na
autodissolução como um estado de fluxo permanente.
É
a apropriação de tudo pelo eu que faz a autodissolução soar tão assustadora.
Espero
que você tenha uma boa semana.
Com todo
o meu amor,
Canal: A.S.
Fonte primária: https://eraoflight.com
Tradução: Sementes das Estrelas/Isabella Cassy Damasceno Branco
https://www.sementesdasestrelas.com.br/artigos/a-s-o-eu-se-apropria-de-tudo/


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